29.4.08


Poente



há oiro derramado sobre o campo


quantas árvores cantam

quantas quantas

sob a luz que as envolve
e que me envolve
sob um fulgente manto

e eu rio
e estendo as mãos pra todo o oiro
que se desfaz em estrelas

e semeia
meu coração inteiro
sobre a terra

esta terra tão estranha
que não amo


Glória de Sant'Anna



Lembranças do futuro


Traz-me lembranças tristes o porvir,
mais do que as débeis luzes a jusante
acesas por consentidas saudades.

O pranto do homem é o menino perdido,
mas a criança que chora na margem
não se chora. Chora o homem:

só os poetas têm lembranças do futuro.


Rui Knopfli



Passos furtivos na escada


Passos furtivos na escada
Da minha imaginação.
Sabendo-os frutos de nada
São reais como os que o são.

Basta que os oiça e provocam
A minha insónia de assalto.
Se fujo, seguem-me, voam…
Se grito, gritam mais alto.

Por favor, bom senso - Não!
E resposta que eu não posso.
De que me serve a razão
Se não existe o que eu ouço?


Reinaldo Ferreira



Um anjo erra (o amor confuso)


Um anjo erra
nos teus olhos diurnos

humedecido do véu
(ao fundo, a íris entardece)
seguiu de cor a revoada das pombas

místico
um arroubo ascende a prumo
do plano em que me fitas

cisnes desaguam
do teu olhar em fio
e vogam ao redor, pelo estuário da sala

ao sol-poente
os vitrais das janelas
ardem na catedral assim erguida

colocamos um sonho
em cada nicho

e no círculo formado pelas nossas bocas
subentende-se com verve
a língua.

Sebastião Alba


Não sei que luzes


Não sei que luzes a bordo
escurecem de sentido a noite larga
e em mim perfilam solenes
as sensações na sombra

flébeis costas
devolvem o mar disperso
e nos flancos do casco
um monótono som singra

só minhas ânsias embaladas
fremem
a cada indefinido promontório
se resignam hirtas
na amurada
ou, se volve um farol,
são nucleares e brancas

mas amanhece
vagam flocos de círios
um sol de adolescência e de novela
descobre a amante insulada

e um sino toca para o pequeno almoço.


Sebastião Alba


28.4.08


A Quinta Década


Faz muitos anos que me oculto,
quedo, estendido ao longo desta muralha.
Infectas as feridas são vivas
e secam em falso oblongas crostas.
Estendido em silêncio e torpor:
Vinte e tantos anos de idade
e outros tantos de medo.

O medo da palavra e do gesto,
medo na aba do chapéu e na gabardina,
medo de ti que me olhas na avenida,
medo escorrido ao longo da fachada,
mergulhado nas poças brilhantes do asfalto.
Não tenho culpa de ter medo,
nasci no tempo impreciso do medo.

Não temo o rosto diverso da morte,
não temo a ameaça da nuvem atómica,
não temo o suceptível de ser temido
há dois mil e tantos anos.
Temo a disfarçada ameaça indisfarçada,
temo o honor da angústia a todo a hora,
temo o temor do tempo do medo.

O medo infla, cresce e avoluma-se.
Impregna-se na carne, no cerne das unhas,
veste a tepidez da epiderme e o frio dos ossos.
Total, domina, obstrui, materializa-se em suor.
Pela calada sombria vireis na hora próxima.
Prevenido de medo, farto de medo,
tremo, e este modo é uma ameaça

que se oblitera e volta contra vós.


Rui Knopfli



Epula


à chuva do caju

reboando a galope
vestida de trovões
e de sedas azuis
sobre o matope

não é

esta chuvinha fina
que se deixa cair como cristais
sobre todas as faces
e
não tem a força
dos grandes densos matos

em que se grita EPULA
e em que se ri
com o corpo molhado
Glória de Sant'Anna




Lobo Calabouço e Crown Mines


Uma vez era um lobo
disfarçado nas pupilas de um homem
com música de rins palpitando harpas
changanas nos flancos das raparigas
sem elas darem por isso na técnica
rural da sua cidadania aonde uma corja
de garras ao natural indo e vindo
no prenúncio mágico das mãos hasteadas
nos vagões da South African Railway
com restos de pés nos pedais das bicicletas
a todo o urânio da Crown Mines rápidas
e persuasivas no melaço das vozes
National nos rádios de aldeia em aldeia
retransmitindo os nervos
de cadeia em cadeia.

Mais um minuto magaízas
não se acidentem agora por favor
que uma libra de gritos na porta mortal
da sua casa de oiro algema o mineiro
e de repente leva-o no seu calabouço
alvo de pernas por meia-dúzia de xelins.

Sóum minuto mais magaízas
só um minuto mais magaízas enquanto volta
da Eloff Street o poeta com chapéu de plástico
uma velha perna boa e uma nova de madeira
exibindo um rádio portátil a tiracolo
para acabar de vez este poema!


José Craveirinha



Quadro


tanto oiro na tarde
escorrendo do poente

as silhuetas das árvores
são fímbrias de poemas

e quantos horizontes
me esqueceram?


Glória de Sant'Anna



Poema



Os gritos da menina
são como espadas.

Lucilam na transparência
inesperados,
e trespassam-me.

Mas por toda a parte
há flores azuis
e bonecas e pássaros

que a menina traz
e deposita nos meus braços.


Glória de Sant'Anna


27.4.08


Gente a trouxe-mouxe


Gente à trouxe-mouxe da má sorte
calcorreia a pátria asilando-se onde
não cheira a bafo
de bazucadas.

Gente que gastronomiza
desapetitosos bifes de cascas
guisados de raízes ao natural
e sobremesas de capim seco.

Gente dessedentando martírios
nos charcos se chover.
...
ou a pé descalço dançando.
A castiça folia.
Das minas.


José Craveirinha

26.4.08


Epitáfio


Eu um dia serei uma poalha de vento
pousando inadvertidamente em tua face

e me sacudirás

Eu um dia serei uma réstea de chuva
caída por acaso em tua fronte

e me sacudirás

E eu um dia serei a última lembrança
imponderável já na tua mente

e então me esquecerás


Glória de Sant'Anna



Amor das Palavras


Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis
que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo
para o sabor dos teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será
comparável à das huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é
por vezes fabordão e sesquipedal.
Nele existe o meu retrato moral (que
não confesso) e o de meus inimigos,
rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à comua.
O dicionário, as palavras, irritam muita gente.
Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário,
maciço e baixo e pelo seu casaco, azul
desbotado, de modesto erudito.


Rui Knopfli


24.4.08


Do resto


Jambesse VI

Do resto sei somente que a Quirimba é um palmar
teutão
um batalhão de coqueiros em parada;
Quirambo um cesto de songomas que não esqueço;
Matémwé imensa mancha aprisionada
num horizonte azul de lágrimas salgadas
e pudores
grande e vazia;
só dona Elisa e o Kesso
na ausência pendular dos pescadores


Júlio Carrilho

Deitei ao sono a terra
lhe beijei os olhos fatigados
e me ficou nos lábios
um sabor de gota

Era a lágrima do sangue
a seiva ferida do chão
clamando em sua carne
a derradeira carícia

Adormecida,
a terra me ofertou seu ventre
para que nele guardasse
toda a minha morte

E eu deixei
ensonar a mão
sobre o último abismo.


Mia Couto



Passemos, tu e eu, devagarinho


Passemos, tu e eu, devagarinho,
Sem ruído, sem quase movimento,
Tão mansos que a poeira do caminho
A pisemos sem dor e sem tormento.

Que os nossos corações, num torvelinho
De folhas arrastadas pelo vento,
Saibam beber o precioso vinho,
A rara embriaguez deste momento.

E se a tarde vier, deixá-la vir
E se a noite quiser, pode cobrir
Triunfalmente o céu de nuvens calmas

De costas para o Sol, então veremos
Fundir-se as duas sombras que tivemos
Numa só sombra, como as nossas almas.


Reinaldo Ferreira



Anoitecer


Casas vigiam em uniformes de cal.
Nem as aves clinicam:
o vento encrespando as gralhas
contra o céu que se exila,
além da obscuridade, das janelas que se seguem
nas paredes imóveis;
um tempo só de ida, com o seu curso
erosivo em nosso leito,
e essa atilada luz eléctrica,
explicam a tua vida,
meu amor. E escrevo.
Não buscando ainda acasalar
nossos gestos migratórios,
mas como, em uma noite rural,
o sexo a expende.


Sebastião Alba


23.4.08


Henrique


quantos henriques foste desde ceuta
até à só lendária escola em sagres

o que importa porém é seres o mito
onde se concentrou a acção nos mares



Glória de Sant'Anna


22.4.08


Amanhã é longe demais


Fragmentos sensíveis
Andam pelo tempo
Marcando o ritmo
Do voo das aves invisíveis

Doces melancolias
Desfazem-se pelos mistérios dos olhares
A beleza navega pelos sete mares
Diluída no brilho dos sonhos

Sombras de movimentos ancestrais
Dançam a beleza da luz imaculada
Por entre os astros do silêncio
Libertando transparências sentimentais.

Na baía das lendas
Abraçando a leveza dos espíritos
Gotas cristalinas de fontes eternas
Escorrem suavemente sonhadoras

Libertam o agora
Das profundezas do sonho da vida
E a sombra misteriosamente adormecida
Diz-nos que chegou a hora.


Jorge Viegas



Que de nós dois


Que de nós dois
O mais sensato sou eu,
- E uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.


Reinaldo Ferreira



A casa da areia


Face ao mar, orgulhosa no topo do areal,
só madeira e zinco sobre pilares de cimento
ao sabor dos quatro ventos. O quintal
das traseiras sempre uma festa, frango
no churrasco, alegria nos copos. Depois

a Isilda casaria com o Freitas,
a Ermelinda ia ficar para tia
e o Horácio dava em droga.
O Neca, o Tino e o Mando foram
à vida, cada qual para seu lado.

Na velha casa virada à baía,
além do ranger da maneira
batida pelo vento e a areia
apenas ficaram a avó Carminda
e a velha cadela «Deixa - falar».


Rui Knoplfi



Epílogo


Fui
hóspede nesta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.

O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.

Essa ave em que o outono
Se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.


Sebastião Alba


21.4.08


Mania do suicídio



Mania do suicídio

Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.


Rui Knopfli



Paragem



Não árvore,
não caibo nos teus braços.

Eu desci de um caminho mais distante
perdido na memória.

Deixai-me seguir só pela terra adeante,
que um dia voltarei vinda do mar.

Busca-me então desesperadamente,
ergue meu corpo esparso.
Eu cantarei saudades docemente
quando o vento surgir das noites de luar.

Deixar-me seguir só pela terra adeante
que um dia voltarei vinda do mar...


Glória de Sant'Anna



Estrada


Súbito apercebo-me:
Segue a viagem dos anos.
Passou o tempo das amoras
e das laranjas furtadas,
a flor da chuva de ouro
para sugar o gostinho a açucar.

Sonho com uma comprida paisagem de cedros
que nunca vi.
Apetece-me deixar o corpo adormecido
junto ao rádio
e ir passear pelos galhos das árvores
e sobre os fios telefónicos.

Nada feito,
pesada de agruras e desertos
segue a viagem dos anos.


Rui Knopfly



Poema


Menino, menino,
que poema te faço?
(Teu suspiro longo
no meu abraço).

Que me dás, menino,
pelo meu sorriso?
(Tuas mãos de prata
no meu rosto esguio).

Menino dourado
entre o sol e a água,
entre as nuvens planas
que cobrem a estrada,
dentro das paredes
da pequena casa,
através da música
das horas quietas,
à volta da mesa,
no chão de quadrados...

Quais são os caminhos
que esperam teus passos?

Glória de Sant'Anna



Agora



Maria.
Volto à espécie de amor
que para além de marido e mulher
nos fazia também irmãos.

Agora
sem intrigas de ninguém
por estares sempre do meu lado.

José Craveirinha


20.4.08


Ardeste


Ardeste
Incólume

Promontório após
Promontório

O teu ser foi absorvendo
Inteiro
O horizonte laminado
Circular

Alberto de Lacerda


Barbearia


Na barbearia às escuras
Júlio Chaúque foi barbeado
quando voltava da machamba de milho.

Os que viram
dizem que Júlio foi escanhoado
até às carótidas do colarinho
em requintes de gilete
dos facões de mato.

Os barbeiros do Chaúque
deixaram em toalhas de folhas secas
congruentes nódoas roxas.

José Craveirinha

19.4.08


Nós e o destino

Ao Patraquim


O tempo sacode na areia o musgo dos pés
no plasma do orvalho lava o rancor das mãos,
somos pó e pólvora na combustão da História
medimos aos milhões o fragor de cada acto consumado
e entre nós e o destino vai um palmo de esperança
que por sorte marcha a pé.

É o silêncio o mártir predilecto desse gesto
quando a fome não satisfaz a míngua da boca
e as migalhas fermentam o cuspo de cada um
pois é então cruel o nosso grito inevitável
e ardem em brasa os braços cálidos de vontade.

No mesmo chão em que brindamos os sacrifícios
cremos ter semeado a sílaba mágica
dessa oração de manter a mão de outro irmão
lacrada à nossa;
e só na hora de adorar o luar e os batuques frenéticos
nos desfazemos em êxtase
triturando o mesmo pó de que somos feitos.


Hélder Muteia



Soneto


Eu tenho a pagar 10 e na carteira
Apenas tenho 8. Eis a arrelia.
Eis-me buscando em mente uma maneira
De pagar o que devo em demasia.

E fico às vezes nisto todo o dia,
Um dia inteirinho em estúpida canseira.
Se busco distrair-me, de vigia,
Olha-me a rir a dívida grosseira.

E entretanto na rua vão passando
Carros de luxo, altivos salpicando
O lodaçal dos trilhos sobre mim…

E sinto, na revolta, o algarismo,
Do trono do brutal capitalismo,
A rir de nós, os bobos do festim!


Rui de Noronha



Inventário


Rosas inglesas rosa-pálido tingido
de alvura, gravatas Lanvin e Ricci.
Na mão a demorada taça do ordálio,
ouro velho e insidioso, doce cheiro a fumo.
Objectos familiares, ténues, difusas

lembranças de longe. Um crânio
de ébano negrejando entre a luz
e a garrulice do barro artesanal,
o cio magoado da voz fadista. A ilha ao sol,
ao sonho, amortalhada na distância.

O cajueiro e a mafurra, micaias
agrestes, panoramas da infância,
dolorosos, esbatidos fantasmas
de outro tempo, agigantados em olmos
e castanheiros na oval cinzenta

do No Man's Common. Livros por abrir
dormitando na poeira, o gráfico
anguloso do horóscopo, retratos,
memória paralisando o instante
esquecido. A mulher de passagem,

velo fulvo, debrum para o azul
lavado do olhar, perfil mitigando
a vacilante modorra do entardecer.
Alongada curva do flanco retraindo-se
sob a experimentada carícia antiga

dos dedos cansados. Toda a memória
inflectindo o gesto, o gesto já só memória
que de si mesma se desprende e afasta,
conjecturando, indolor, a paisagem
neutra dos dias que se avizinham ermos.


Rui Knopfli



És a vela içada


És a vela içada
a quilha que contorna
a carne das águas.
És a tempestade
a chuva premeditada
e eu o náufrago
que não se permite afogado.


Eduardo White



Ilha de Moçambique


Não é a pedra.
O que me fascina
é o que a pedra diz.

A voz cristalizada,
o segredo da rocha rumo ao pó.

E escutar a multidão
de empedernidos seres
que a meu pé se vão afeiçoando.

A pedra grávida
a pedra solteira,
a que canta, na solidão,
o destino de ser ilha.
O poeta quer escrever
a voz na pedra.
Mas a vida de suas mãos migra
e levanta voo na palavra.

Uns dizem: na pedra nasceu uma figueira.

Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.


Mia Couto



Infância


Sempre o mesmo desejo
de voltar às praias
da infância:
argúcia dos dedos na areia
alegria dos olhos na espuma…

mas como voltar aos trilhos
apagados?
e como voltar às fontes
incendiadas?

(ao invés deste desejo
eis-me espiando o futuro
que nunca vivo!)


Armando Artur



Ponta da Ilha


Ó corpos dados com melodia
As melodias do meu ardor!
Ó pretas lindas! Ponta da Ilha!
Vestem soberbos panos de cor.
Deles se despem com grã doçura,
Vénus despida no próprio mar.
É com doçura que negras, lindas,
Desaparecem no meu calor.


Alberto de Lacerda



Na dor da tua morte


Se as lágrimas se desprendessem
dos olhos dos poetas
e rosas dos seus dedos
e soluços dos seus lábios,
quem senão nós
derramaria lágrimas
e desfolharia rosas,
a quem senão a nós
rebentaria o coração,
na dor da tua morte
súbita e exacta?

Mas o Poeta, Reinaldo,
o Poeta não chora…
E cada um de nós
sobre o teu corpo
deixará cair
as flores de sangue e de amargura
que são os nossos versos
nesta hora.


Nuno Bermudes



Maputo


Preciso dizer-te com carácter de urgência.
Preciso revelar-te na palavra e no silêncio.
Preciso sublimar a minha solidão na sombra
das palavras e dos gestos acordando
na imensidão dos dias vozes duendes
como se me albergasses na infância
Preciso amar-te com urgência. Amar-te
como palavras. Sussurrar-te minhas ânsias.
Adormecer minha voz no teu ouvido.
Perscrutar o som do silêncio. Dizer-te
com urgência inadiável que te amo.
Preciso amar-te ó meu amor amado.
Preciso amar-te como quem ama
pela última vez. Amar-te como se fosse
um voo agónico. Amar-te na margem
da ausência tua. Amar-te nas canções
que oiço pela manhã. Nas vozes espantadas
das mulheres no Xipamanine. Preciso
de te amar neste trajecto dorido por Maputo
com estas vozes que atravessam a noite.
Preciso amar-te com urgência. Amar-te agora e sempre.
Preciso de te amar somente.
Dizer-te: amo-te, minha musa, meu amor amado.
Preciso de te amar. Amar. Amar-te simplesmente.


Nelson Saúte



Costa do sol


À mesa enquanto o cachucho me não desmente
a incerteza sobre o blues que prolonga
a minha solidão sobre a esparsa quietude da tarde
ausento-me desta varanda e meu olhar
intenta alcançar a fronteira entre o mar e a ilha.

Quando regresso de Xefina me dou conta
de que tenho companheiros que falam
com abundância e se riem às gargalhadas
tecem elogios ao caril de camarão
e ainda são capazes de falar línguas estrangeiras.


Nelson Saúte



À luz do poente



Há pouco
Estando olhando o mar,
Tive um desejo louco
De nele me deitar.

A água tão quieta,
Tão limpa e cintilante,
Punha-me pena de não ser poeta
Um só instante,
Para montar-lhe o dorso e ir o mundo fora
Tangendo as leves ondas;
Cantando a luz da Aurora
As pálidas giocondas,
E a grande desventura
Dos que ela enfeitiçou
E numa noite escura
Sepultou…

Dourando-a de revés,
O sol descia lentamente,
E havia no poente,
De quando em vez
hesitações de ouro
Que punham um brando coro
De nostalgia
Nas folhas mais erquidas do arvoredo
Que oscilando a medo
Olhavam tristemente o fim do dia…

E então
mesmo vestido
Vencido o coração,
Vencido o meu sentido,
Eu fui entrando, pouco a pouco,
Lentamente…
E ali me pus nadando como um louco
À luz do poente…


Rui de Noronha


Quero ser tambor


Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!


José Craveirinha







14.4.08


O futuro


Aos Domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos Domingos iremos ao jardim.
Diremos nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve…
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses-,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários.


Reinaldo Ferreira



Gosto dos amigos


Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta


Sebastião Alba



A Carlos Paredes

Não são dedos:
São lágrimas.
Não são cordas:
São fios de saudade.
Não é um país: É um coração
que soletra lágrimas
na saudade que temos de nós próprios.


Mia Couto



Olhos deslumbrados


São estes ainda,
os olhos da infância,
deslumbrados,
deslumbrando-se
aos milagres da vida:
a intacta pureza das crianças,
os luminosos rostos feminis,
a limpidez das nascentes,
as cambiantes do fogo...
tudo, tudo quanto é beleza
ou lhe deslumbra beleza
os olhos deslumbrados.


Fernando Couto




Poema da infância distante


A Rui Guerra


Quando eu nasci na grande casa à beira-mar,
era meio-dia e o sol brilhava sobre o Índico.
Gaivotas pairavam, brancas, doidas de azul.
Os barcos dos pescadores indianos não tinham regressado ainda
arrastando as redes pejadas.
Na ponte, os gritos dos negros dos botes
chamando as mamanas amolecidas de calor,
de trouxas à cabeça e garotos ranhosos às costas
soavam com um ar longínquo,
longínquo e suspenso na neblina do silêncio.
E nos degraus escaldantes,
mendigo Mufasini dormitava, rodeado de moscas.

Quando eu nasci...
- Eu sei que o ar estava calmo, repousado (disseram-me)
e o sol brilhava sobre o mar.
No meio desta calma fui lançada ao mundo,
já com meu estigma.
E chorei e gritei – nem sei porquê.
Ah, mas pela vida fora,
minhas lágrimas secaram ao lume da revolta.
E o Sol nunca mais brilhou como nos dias primeiros
da minha existência,
embora o cenário brilhante e marítimo da minha infância,
constantemente calmo como um pântano,
tenha sido quem guiou meus passos adolescentes,
- meu estigma também.
Mais, mais ainda: meus heterogéneos companheiros
de infância.

Meus companheiros de pescarias
por debaixo da ponte,
com anzol de alfinete e linha de guita,
meus amigos esfarrapados de ventres redondos como cabaças,
companheiros de brincadeiras e correrias
pelos matos e praias da Catembe
unidos todos na maravilhosa descoberta de um ninho de tutas,
na construção de uma armadilha com nembo,
na caça aos gala-galas e beija-flores,
nas perseguições aos xitambelas sob um sol quente de Verão...
- Figuras inesquecíveis da minha infância arrapazada,
solta e feliz:
meninos negros e mulatos, brancos e indianos,
filhos da mainata, do padeiro,
do negro do bote, do carpinteiro,
vindos da miséria do Guachene
ou das casas de madeira dos pescadores,
Meninos mimados do posto,
meninos frescalhotes dos guardas-fiscais da Esquadrilha
- irmanados todos na aventura sempre nova
dos assaltos aos cajueiros das machambas,
no segredo das maçalas mais doces,
companheiros na inquieta sensação do mistério da “Ilha dos navios perdidos”
- onde nenhum brado fica sem eco.

Ah, meus companheiros acocorados na roda maravilhada
e boquiaberta de “Karingana wa karingana”
das histórias da cocuana do Maputo,
em crepúsculos negros e terríveis de tempestades
(o vento uivando no telhado de zinco,
o mar ameaçando derrubar as escadas de madeira da varanda
e casuarinas, gemendo, gemendo,
oh inconsolavelmente gemendo,
acordando medos estranhos, inexplicáveis
das nossas almas cheias de xituculumucumbas desdentadas
e reis Massingas virados jibóias...)
Ah, meus companheiros me semearam esta insatisfação
dia a dia mais insatisfeita.

Eles me encheram a infância do sol que brilhou
no dia em que nasci.
Com a sua camaradagem luminosa, impensada,
sua alegria radiante,
seu entusiasmo explosivo diante
de qualquer papagaio de papel feito asa
no céu de um azul tecnicolor,
sua lealdade sem código, sempre pronta,
- eles encheram minha infância arrapazada
de felicidade e aventuras insquecíveis.

Se hoje o sol não brilha como do dia
em que nasci, na grande casa,
à beira do Índico,
não me deixo adormecer na escuridão.
Meus companheiros me são seguros guias
na minha rota através da vida.
Eles me provaram que “fraternidade” não é mera palavra bonita
escrita a negro no dicionário da estante:
ensinaram-me que “fraternidade” é um sentimento belo, e possível,
mesmo quando as epidermes e a paisagem circundante
são tão diferentes.

Por isso eu CREIO que um dia
o sol voltará a brilhar, calmo, sobre o Índico.
Gaivotas pairarão, brancas, doidas de azul
e os pescadores voltarão cantando,
navegando sobre a tarde ténue.

E este veneno de lua que a dor me injectou nas veias
em noite de tambor e batuque
deixará para sempre de me inquietar.

Um dia,
o sol iluminará a vida.
E será como uma nova infância raiando para todos.


Noémia de Sousa